
Infraestrutura global. Soberania Local.
A influência geopolítica no universo da tecnologia é comum e cada vez mais frequente. A seguir, listamos alguns exemplos recentes.
Em 2022, após a invasão da Ucrânia, empresas como Visa e Mastercard suspenderam operações na Rússia. Cartões emitidos fora da Rússia deixaram de funcionar no país e vice-versa. Foi uma decisão corporativa alinhada a sanções ocidentais. Em resposta, a Rússia expandiu o uso do sistema de pagamento nacional Mir, lançado em 2015 pelo Banco Central da Rússia via NSPK (National System of Payment Cards). Até o primeiro trimestre de 2025, mais de 476 milhões de cartões Mir foram emitidos, representando cerca de 28-30% do mercado de débito russo, com taxa de falha abaixo de 1%. Visa e Mastercard passaram a operar apenas domesticamente via infraestrutura local, enquanto Mir é aceito em países como Turquia, Vietnã, Cuba e alguns da ex-URSS, apesar de sanções secundárias dos EUA contra sua expansão em 2022. No mesmo contexto, a Microsoft e a Oracle interromperam vendas de produtos e serviços para clientes russos. Plataformas de nuvem e licenças de software foram afetadas.
Casos semelhantes envolvem países sob embargo dos Estados Unidos, como Irã e Coreia do Norte. Empresas americanas como Google e Apple bloquearam acesso a serviços digitais nesses países para cumprir regras da OFAC (Office of Foreign Assets Control), o órgão de controle de ativos estrangeiros dos EUA. Há também episódios envolvendo a PayPal, que suspendeu contas de usuários em regiões específicas quando passaram a constar em listas de sanções internacionais. Recentemente, em fevereiro de 2026, os EUA impuseram novas sanções a navios iranianos transportando petróleo para financiar mísseis, e em janeiro de 2026 sancionaram uma rede por contrabando de tecnologia americana ao Banco Central do Irã, bloqueando transações relacionadas.
Por fim, outro exemplo envolve restrições do governo dos EUA a empresas chinesas, como a Huawei, proibindo companhias americanas de fornecerem tecnologia. Isso afetou diretamente as cadeias globais de fornecimento, com controles de exportação ampliados em 2025 para software de design de chips (como Synopsys e Cadence), embora alguns ajustes tenham ocorrido em 2026.
Sem entrar no mérito moral desses exemplos, eles afetaram não apenas a população em geral, como também empresas muitas vezes contrárias às ações que deram causa.
Do ponto de vista das empresas que interrompem seus serviços, é importante separar três motivações principais:
Cumprimento de sanções legais: uma empresa pode ser obrigada a bloquear seu serviço para determinado público sob o risco de sofrer multas bilionárias.
Decisão estratégica, ideológica ou reputacional: uma empresa escolhe sair de um mercado por questões ideológicas ou por capital político/reputacional.
Inviabilidade econômica ou jurídica: uma empresa sai de um mercado quando a operação passa a ser economicamente ou juridicamente inviável.
No mundo hiperconectado de hoje, serviços digitais atravessam fronteiras com a leveza de um clique, mas continuam presos às amarras do direito internacional e das políticas nacionais. A infraestrutura é global, mas a soberania ainda é local.
Porém, como garantir essa soberania em um mundo cada vez mais conectado?
Um grande risco no âmbito financeiro é depender de serviços estrangeiros para processamento de transações básicas do dia a dia, como processamento de cartão, pagamentos instantâneos e acesso a numerário em espécie. Esse é o caso de países dolarizados, como Equador, El Salvador e Panamá, que usam o dólar americano como moeda principal. Nesses cenários, compensação, liquidação e acesso a numerário dependem em parte do sistema bancário norte-americano (correspondentes em bancos dos EUA, redes Visa/Mastercard, processamento em servidores fora do país). Assim, transações corriqueiras – como levantar dinheiro em ATM, pagar com cartão ou receber transferências do exterior – passam por bancos correspondentes e infraestrutura sediada nos EUA.
Um problema dessa estratégia, que no curto prazo atrai investimentos e favores diplomáticos, é que, no longo prazo, torna difícil sustentar conflitos diplomáticos sem ficar refém do país detentor da solução. Sanções podem cortar acesso instantâneo a ferramentas básicas.
Atualmente, países têm desenvolvido soluções nacionais. O PIX brasileiro, por exemplo, é um sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central do Brasil, com foco em atualizar processos online e offline. Em 2025, o PIX enfrentou investigação nos EUA sob a administração Trump (via Seção 301), alegando prejuízo a empresas americanas por sua gratuidade e soberania. Medidas assim reduzem gradualmente a dependência de soluções estrangeiras para processos básicos, como acesso a moeda local.
Referências Bibliográficas
US issues new Iran sanctions on eve of nuclear talks in Geneva[aljazeera]
US Announces Sanctions Over Smuggling Tech To Iran's Central Bank[iranintl]
Brazil Has a New Digital Spending Habit. Now It's a Trump Target[nytimes]
United States sanctions against Iran - Wikipedia[en.wikipedia]
US cracks down on China tech and chemical exports, targets chip design software in latest escalation[youtube]
Trump e EUA podem pedir que Brasil acabe com o PIX dizendo que ele prejudica empresas americanas[br.cointelegraph]
As Trump reins in China tech curbs, Beijing's export controls come of age[reuters]
MasterCard, Visa Now Process Russian Payments Through Sanction-Proof System[themoscowtimes]
Russia's Mir demonstrates excellent growth - supported by State mandates[paymentscardsandmobile]
Russia to phase out Mastercard and Visa | Digital Watch Observatory [dig]
From SBP and Mir cards to the digital ruble: how Russia's payment system is developing in 2025[rtln]
PIX é investigado nos EUA a pedido de Trump por configurar possível prática anticompetitiva[g1.globo]